Aurora nas Sombras
O horror de Aurora é o desconhecido
Aurora nas Sombras é um quadrinho de terror ótimo de se ler, ele brinca com a normalização de situações extremamente desconfortáveis e usa da narrativa para ir gradualmente criando mais cenários de horror, flertando com a nossa relação com o desconhecido.
É uma história que em minha primeira leitura terminei com muitas dúvidas e teorias sobre seu final, e agora escrevendo este texto percebo que não tenho nenhuma opinião conclusiva sobre o enredo, apenas ideias.
Opa! Cuidado a frente
Escrever notas sobre leituras nem sempre é fácil sem trazer um pouco de
spoilers com o texto. Por isso queria avisar que desta parte do texto para
frente poderá haver spoilers de: Aurora nas Sombras.
Se não quiser que isso impacte sua experiência lendo estes volumes, volte depois
da sua leitura!
A base da história de Aurora nas Sombras já me trouxe muitos questionamentos sobre como deveria interpretar aquela narrativa. Ao ver Aurora morta e os personagens que acompanhamos saindo de seu corpo, eu me perguntava, o que aconteceu com esta menina? Ela foi assassinada? Ela foi APENAS assassinada? Por que uma menina desta idade está aqui no meio do mato? É coisa de gringo deixar os filhos brincarem em florestas assustadoramente assustadoras?
Inclusive os próprios personagens são um mistério. Estes “divertidamente” que vemos, afinal de contas, são o quê? São sentimentos? São personificações de conhecidos do passado de Aurora ou seriam projeções de como ela gostaria que a sua relação com terceiros fosse?
Gosto que existem diversas interpretações possíveis de o que são eles, e essa dinâmica de tentar encontrar uma lógica ficou muito mais intensificada quando participei do clube de leitura da Loja Monstra em parceria da DarkSide — motivo de eu ter comprado este quadrinho — onde passamos mais de uma hora discutindo a história sem no final chegar a conclusão nenhuma dê o que seriam estes personagens.
Minha teoria favorita é que eles são projeções de pessoas que Aurora já se relacionou e como ela, enquanto criança, vê o tipo de personalidade que estes personagens representam. Aurora — a personagem fantasiosa — é a real personificação do subconsciente/imaginação de Aurora — o cadáver — e é por ela que vemos a relação, inocência e fragmentação daquela criança.
Gosto dessa ideia, pois alguns personagens como a grandíssima otária da Zélia, o frouxo do cavaleiro Hector ou até mesmo a figura heroica da Jane se destoam muito sobre quem é a personagem de Aurora. E sendo muito sincero, se todas essas personalidades fossem partir da própria Aurora puta que pariu que criança bipolar ela era.
O horror de Aurora é a inocência
Com certeza uma das coisas que mais me incomodava durante a leitura era a apatia dos antagonistas e personagens secundários no decorrer da violência que o quadrinho nos apresenta, o que para mim era claramente um reflexo da inocência de Aurora.
Sempre que algo acontecia com um personagem, fosse uma morte rápida ou uma situação grotesca, os personagens passavam por um momento de espanto, para logo em seguida lidar com aquele momento como a coisa mais normal do mundo.
Existem diversos exemplos durante a história, seja quando uma das irmãs bailarinas morre no ninho dos pássaros, seja quando uma das personagens é comida pela outra que ainda brinca de estar grávida com ela em sua barriga ou quando uma das personagens fica com alergia e seu corpo vai lentamente inchando.
O horror para mim nestas mortes da história é imaginar que esse tipo de situação brinca muito com a ideia de que Aurora, por ser uma criança, não entenderia a violência da vida, ela não saberia talvez nem quando algo é ou não perigoso ou quando alguém precisa ou não de ajuda. E isso fica mais latente quando vemos personagens morrendo presos em troncos, enterrados como uma brincadeira ou até mesmo ferindo os insetos.
O horror de Aurora é que Aurora está morta
Mesmo com tantas narrativas secundárias acontecendo nesse grande grupo de personagens, o quadrinho ainda nos ajuda a lembrar que ali existe uma garota morta. Achei muito bem desenhado e incrivelmente bem encaixado na história que conforme vemos mais e mais situações grotescas acontecendo mais o corpo de Aurora — a criança morta — apodrece.
O cadáver definha, ele é comido por larvas e moscas e paralelamente os personagens vão ficando mais sádicos e cruéis, inclusive Aurora — a personagem fantasiosa — vai perdendo seu brilho em meio a tanta violência e apatia que ela mesmo se corrompe em desespero, comete uma violência e prefere se afastar do grupo.
Mas o cadáver, bom, o cadáver continua lá, e depois de muito tempo vamos apenas teorizando o que pode ter acontecido com ele. Não sei você leitor, mas quando temos a primeira visão do personagem que vou chamar de “Homem da Cabana”, eu quase que automaticamente pensei: OK, aqui está o nosso assassino.
Durante um tempo, principalmente quando Aurora está na cabana e se sente atraída pelo homem, passou pela minha cabeça até que poderia ser uma forma de expressar uma síndrome de Estocolmo, mesmo que Aurora não soubesse que ele seria o assassino de sua contra-parte humana.
Quando discuti sobre esses pontos no clube de leitura, a minha opinião sobre a relação dos dois foi se tornando cada vez menos certa. Escrevendo este texto não acho que essa ideia de síndrome de Estocolmo seja boa, na verdade, nem gosto dela para ser sincero.
Depois de muito folhear o quadrinho, fiquei pensando que provavelmente este homem da cabana se tornou para Aurora — a personagem fantasiosa — um espaço de segurança e superação do que ela passou com aquele grupo de personagens. Ele seria seu Hector, o príncipe, que estaria ali para proteger ela. Gosto dessa visão porque flerta de novo com a inocência da criança, talvez Aurora — o cadáver — tivesse a mesmo pensamento de, enquanto perdida na floresta e enquanto este homem não ser o seu assassino, de procurar ajuda de algum adulto sem saber se ele faria ou não algum mal.
Terminei a leitura deste quadrinho e Aurora continuava morta, sem saber o porquê, sem saber se o homem da cabana foi seu carrasco e agora com a dúvida de se Aurora — a personagem fantasiosa — ficaria bem.
O que posso dizer é que este é um ótimo quadrinho de horror, que os autores criaram uma história fantasiosa e grotesca que me prendeu em uma leitura rápida, que me causou incomodo em diversos momentos e que talvez os questionamentos que ficam também façam parte do horror da história de Aurora.