Eu acendo e você estoura as bolas
Quando meu avô ainda era vivo, uma das coisas que eu, moleque, mais curtia fazer com ele na época, era jogar sinuca. Ele tinha uma mesinha bem velha e capenga, em uma pequena casa de campo que tinha, e sempre que íamos para lá, e após limparmos as teias de aranha da mesa, eu e meus primos ficávamos desafiando ele, sempre para perder.
Anos depois, eu ainda continuo péssimo em sinuca, mas adoro acompanhar vídeos no YouTube de clássicos de boteco do famoso Baianinho de Mauá ou de competições de porões na China.
Quando apareceu na estante da Loja Monstra, aqui em São Paulo, esse grandioso quadrinho que é Campeonato Sinistro de Binuca, eu sabia que ali poderia ter um tesouro. E, por sorte, eu não me enganei.
As peças de um boteco
A casa em que cresci com meus pais era ao lado de um boteco, daqueles bem clássicos que têm seu time de futebol que expõe troféus gigantescos, balcão sujo cheio de coisas em conserva e principalmente as figuras carimbadas que são quase que uma mobília daquele lugar.
Os pinguços, os vagabundos, os aposentados, os clássicos caras de boteco existiam ali, e existem também aqui neste quadrinho. Claro, claro, este quadrinho tem alguns não tão clássicos também, afinal, em anos morando do lado do boteco, eu nunca vi um ceifador, manos do inferno e gangues de palhaços.
Mas a vibe do bar de bairro, de bagunça, de lendas locais e das regras de convivência que ninguém nunca escreveu, mas todos os participantes daquele lugar nefasto sabem muito bem como funciona.
É uma versão de Hunter x Hunter feita por dois maconheiros
Primeiro de tudo, eu queria só dar os parabéns para os dois caras que fizeram essa bagunça, que tiveram uma imaginação enorme de criar tantas figuras diversas e com personalidade. Eu realmente me senti lendo Hunter x Hunter (um dos meus mangás favoritos), com páginas cheias de personagens pseudo-secundários e seus “poderes de binuca” que você fica só esperando para saber qual a próxima maluquice que vai aparecer.
Essa imaginação toda teve um destaque enorme para mim, que foi quando a porcada, digo, a ameaça fardada aparece na história. Não da nem para falar que são figuras estereotipadas, esses personagens são o próprio esteriótipo, vide aí o Capitão Bota Bota.
Mesmo sendo um quadrinho escaralhado da para pegar muito fácil as críticas que esses caras fazem sobre truculência, despreparo e filha da putisse dos nossos grandes protetores da lei.
E se já não bastassem as doses cavalares de humor, este quadrinho faz muito bem, e com sequências muito porra loucas, de construir cenas de luta e trocação franca de soco.
Dá para pegar muito bem algumas referências, não só da cultura pop como Jojo Bizarre Adventure, mas como memes da fábrica de malucos que é o Brasil.
O que ainda veremos do submundo de botecos de Belo Horizonte
Como esse quadrinho é inspirado na vida de botecos dos autores de BH, é claro que ele é cheio de gírias e referências da cultura mineira. Eu mesmo dei de presente para meu amigo Rosca, do sul de Minas, um exemplar do quadrinho quando ele passou aqui por São Paulo.
E pô, é muito engraçado quando começamos a conhecer mais do submundo dos botecos, porque é cheio de localidades do caralho, como o Cuzinho de Calangos (bar e simpatizante), o Bar do Belzebolas e claro, o grande Bar do Boto.
Bar do Boto, esse que não só apresenta mais uma porrada de binuqueiros desse mundo maluco, como mostra que talvez nosso protagonista e seus companheiros só estejam vendo a ponta do iceberg dos desafios que têm pela frente.
E aí que cheguei na parte mais chata do quadrinho, que é quando ele acaba, e eu estou aqui agora, esperando o próximo volume desse que é tranquilamente um dos melhores quadrinhos que li esse ano.
Estou muito ansioso para ler mais projetos dessa editora independente que é Eu e um Mano Produções, e acho que vale super acompanhar eles lá pelo Instagram.