Imperialismo e Body Horror

Quando a ComixZone anunciou Little Bird, não vou mentir, fui comprado pela arte. A história parecia boa, mas as páginas apresentadas na prévia foram o real motivo.
Lendo o quadrinho, posso dizer que essa é uma das ficções científicas mais interessantes e bonitas que li nos últimos tempos.
O mundo de Little Bird é desolado por uma versão não tão irreal dos EUA, chamada de Nações Unidas da América, guiado por um grupo tecnofascista ultracatólico que usa a fé, sob a liderança de um falso messias, para caçar pecadores e mods (pessoas modificadas).
Vale destacar que o quadrinho foi originalmente lançado em 5 volumes pela Image Comics no decorrer de 2019, no primeiro mandato de Donald Trump, que é até hoje um líder e símbolo da volta de movimentos fascistas e anti-imigratórios nos EUA.

A tecnologia é, junto à arte que a apresenta, o ponto alto deste quadrinho, pois ela consegue, com cores muito vivas, ser impressionante e aterrorizante ao mesmo tempo. Isso acontece, pois ela usa muito bem o exagero do corpo. Ela é visceral e brinca com o horror de até onde estaríamos dispostos a renunciar a nossa humanidade.

A resistência, povo de nossa protagonista, representada neste quadrinho por pessoas no Canadá, é mais conectada à natureza, tanto de maneira física quanto espiritual, algo que fica muito nítido pela relação de amadurecimento de Little Bird e sua mãe.
Já a relação do povo da resistência com a tecnologia nos é apresentada a partir dos mods (de modificados), como uma representação de suas individualidades enquanto pessoas na sociedade, ao mesmo tempo que serve como uma perversa narrativa de impureza e eugenia para o império, algo que é usado de maneira mais sutil na obra, mas que ajuda a enfatizar essa divisão social que os antagonistas buscam criar.

Little Bird usa muito bem a guerra para construir a história, mas se perde um pouco ao criar uma relação narrativa tão interessante entre alguns personagens.
Com certeza, dentre os vários personagens que conhecemos na história, o Bispo e Machado são os mais interessantes para o amadurecimento do enredo, servindo de contrapartes violentas e sádicas, um contra o outro, eles com certeza são a imagem de suas crenças, que sustentam o conflito ao longo da história.
Inclusive, a busca do Bispo pela dádiva da vida de nossa protagonista é algo que, para mim, podemos entender de diversas formas, não apenas como uma busca de poder. Vejo que a história usa o egocentrismo de um homem desesperado por querer provar a superioridade de uma religião falha, usando a palavra de Deus como um artifício para seus preconceitos e inveja.

Gabriel é, com certeza, um dos melhores personagens, não apenas pelo seu design, mas também porque ele serve como uma porta para as fraquezas do Bispo. Acredito que o Bispo tenha, sim, afeto pelo menino, mas sinto que ele serve como uma busca por validar suas ações e que a cura que busca para Gabriel é, na verdade, apenas uma forma de elevar suas crenças ao povo, usando-o como um milagre vivo, ao mesmo tempo que busca validar sua loucura.
A partir disso, podemos ver que o sacrifício de Gabriel não funciona apenas como um artifício para dar tempo à nossa protagonista em sua fuga, mas também para mostrar que a fé e a autoridade do Bispo e da Igreja são algo que pode ser abalado.

Agora quando vejo o personagem da mãe de nossa protagonista, não sinto que ela se encaixa tão bem no ritmo da história.
Claro, ela é muito importante para entendermos tanto a conexão de sua família com o Bispo no passado quanto, ainda mais, como uma guia espiritual para a jornada de nossa protagonista, um entendimento para que Passaro Pequeno entenda a si mesma e suas dádivas, mas a forma lúdica como esta jornada é contada parece servir apenas como um espaço para o tempo passar no mundo.

A construção de mundo e a fantasia ao seu redor são, para mim, o destaque deste quadrinho. Principalmente pela ambientação que mistura uma distopia bíblica de um mundo doente, com uma variedade de quadros que vão de planícies verdegantes, cidades em desertos desolados e horrores que parecem sair do próprio inferno.
O uso de cores fortes e vibrantes ajuda muito a passar essa sensação de uma ciência viva e orgânica, ao mesmo tempo que os diversos tons de rosa e azul neon criam esse cenário Cyberpunk bem clássico de distopias de um futuro nem tão distante de hoje.

Apesar de não ser uma história que me grudou do começo ao fim, Little Bird vale sua leitura por toda a ficção científica que o quadrinho se propõem a ser.
O body horror, a violência e a tecnologia fantástica, misturados com essa fé visceral, carregam uma excelente crítica a falsos messias e a um imperialismo muito vivo nos dias atuais fez para mim essa ser uma leitura muito divertida e que com certeza vou recomendar a amigos.
