O universo é uma calda de lagosta que os deuses roem

Em 2025, um dos melhores quadrinhos de fantasia que li foi Helen de Wyndhorn, não apenas pela arte e cores lindas de Bilquis Evely e Matheus Lopes, mas por um detalhe que sempre me conquista em histórias como esta, a construção do mundo.

Na verdade, a construção do mundo sempre é o que me ganha em qualquer tipo de história, independente da mídia e também independente do quanto vemos do mundo em que a história se passa.

Essa construção narrativa pode ser desde pequenos espaços confinados que vão contar a história, como a claustrofóbica cabana de Os Oito Odiados (Tarantino, 2015), ou até mesmo a cosmologia e cultura milenar da Terra Média de Tolkien.

E acredito que Helen de Wyndhorn faz do meu jeito favorito de contar sobre o mundo do quadrinho, de uma maneira que vamos descobrindo sua existência, suas regras e culturas conforme a história passa, mas sem nos explicar nada, nos fazendo, maravilhados, refletir: “nossa, será que algum dia eu vou saber mais sobre este lugar?”.

Dentre as muitas páginas e personagens, acredito que uma das melhores a trazer esta sensação é a “Bruxa da Travessia”, personagem que aparece logo quando Helen está para ir em sua primeira aventura do mundo fantástico que estamos para conhecer:

O encontro de Helen com a Bruxa da Travessia

Essa personagem pode, a primeiro momento, parecer apenas um dos vários personagens secundários que vemos, mas logo que a vi na história, adorei o seu design, e muito além disso, a ideia de troca de dentes por passagem que deve ser feita.

Se fosse apenas por este encontro, a fantasia desta relação entre a Bruxa e os personagens principais já seria um ótimo complemento narrativo para entendermos aquele mundo, mas mais à frente na história, quando Helen, enfurecida, cessa a vida da Bruxa, uma sequência de falas de Barnabas, avô de Helen, me chamou atenção:

Barnabas, enfurecido, confronta os atos de Helen

Essas duas falas não apenas expandem o mundo que existe lá fora e que tudo que vimos até agora é apenas a ponta de um grande iceberg, mas me trouxeram essa sensação de que bom, essa bruxa é uma de seis chaves, quem são essas outras? Ou elas cumprem o mesmo papel? No final, saber ou não, não importa, o que fica é esse sentimento de conhecer um mundo que existe muito antes de nós sabermos dele, e como isso é especial para a história.

A forma narrativa de contar sobre o mundo sempre me traz muita atenção porque é quase como se o escritor nos falasse que sim, existe muito mais sobre este lugar, mas por enquanto não vamos mais saber sobre ele, ou quem sabe, nunca saberemos tudo sobre ele.

E isso, apesar de me deixar ligeiramente ansioso, é fantástico! Aflora a minha imaginação enquanto leitor de uma maneira que dá gosto de ler aquela história.

Barnabas fala sobre os mitos dos Submersos para Helen

Se pudesse destacar outras obras que fazem isso muito bem, lembrando aqui de cabeça enquanto escrevo este texto, seriam Hellboy: Paragens exóticas, onde um dos muitos exemplos seria quando vemos uma raça de seres que observa o mundo do vermelhão em outra dimensão, e até mesmo animações como Over the Garden Wall (2014), que traz toda uma sociedade fantástica e seus mitos dentro da floresta em que se passam os episódios.

Inclusive, recomendo muito ler e assistir às obras citadas acima, valem muito a pena.

Mais um quadrinho para enquadrar cada página

Eu não conhecia a Bilquis e o Matheus antes de Helen de Wyndhorn, e, por muita sorte, pude conhecer ambos pessoalmente no lançamento do quadrinho na Loja Monstra, aqui em São Paulo.

Autógrafo da Bilquis Evely e do Matheus Lopes

Hoje, lendo outros trabalhos deles – estou lendo Supergirl nas pausas de escrever este texto – posso dizer que são dois dos meus artistas favoritos.

Os traços finos e detalhados da arte dão uma riqueza de detalhes ao fantástico, eles trazem complexidade de forma, de peso, de toque, e nos aconchegam no ritmo de leitura. Além, claro, das páginas de arte completa, entre os capítulos, que são um show à parte.

Inclusive, neste mesmo encontro de lançamento, a Bilquis comentou que as páginas de capa das edições foram feitas no grafite, além de todas as artes originais serem no estilo tradicional, com pincel, algo me deixou bem boquiaberto e com um novo sonho de decoração do meu escritório.

Capa interna com Helen, Barnabas e a Deusa

Agora as cores, meu, como as cores deste quadrinho são incríveis, na verdade, não sei se incríveis é a melhor palavra, porque não sei se ela enaltece suficientemente bem o trabalho do Matheus, algo que aproveitei para tietar quando falei por 5 segundos com ele.

Em certos quadros – como no abaixo – é quase como se a cor complementasse o sentimento daquele lugar. Uma estalagem aconchegante, quente e que ainda nos mostra a imensidão gélida do mundo afora:

Helen e Barnabas bebendo em uma estalagem

Ao mesmo tempo que a composição de certas páginas traz um passeio por toda uma paleta de cores, preenchendo quadros com uma linda narrativa visual:

Página do quadrinho com destaque à narrativa visual

Eu não sei se ainda teremos uma continuação ou outras histórias de Helen. E sabe, tudo bem se Tom King não quiser escrever mais sobre. Mesmo que a história de Helen não tenha um encerramento neste quadrinho, eu gostei tanto deste mundo que me foi apresentado, que o desconhecido já me satisfaz.

Helen de Wyndhorn é com certeza um quadrinho para se ter na estante de casa, e se algum dia algo novo deste universo for sair, espero muito que seja com este time de artistas incríveis para continuar o trabalho.